O corpo como uma empresa...

Uma das características mais preciosas do nosso organismo é a capacidade das células, tecidos, órgãos, aparelhos e sistemas, trabalharem em equipa obedecendo aos limites de influência de cada um, comunicando entre si e respeitando o princípio fundamental de que o resultado final terá que ser a eficiência: o menor dispêndio de energia para o maior retorno. Quando o nosso corpo gasta mais energia do que a necessária, algo vai mal. Tal como na empresa. No corpo e nas organizações, perda de eficiência é perda de rendimento. Todos nós já sentimos arrepios de frio quando temos febre. Quem não se lembra das tremuras no início de um processo febril. Mas porque razão o corpo treme e, portanto, aumenta a temperatura quando já estamos demasiado quentes? Entre outras razões, porque os nossos sistemas de regulação da temperatura foram repentinamente estimulados com um aumento abrupto da temperatura interna. O mesmo acontece quando na empresa recebemos uma encomenda de dimensões fora do normal? O que faz, normalmente, a empresa? “Treme”, em sentido figurado. Primeiro reage por exagero, contratação de novos colaboradores, alterações dos procedimentos e de regras, novos equipamentos… E, passada a fase do impacto, adapta-se e ajusta-se. Tal como o corpo. Param as tremuras e inicia-se a luta contra o vírus ou bactéria. Mobiliza-se o nosso sistema imunitário e… tudo trabalha para o mesmo fim. Debelar a doença, no nosso corpo, satisfazer o cliente, na empresa!

 

O que o corpo diz à empresa...

A febre é uma reação normal a uma situação anormal. O segredo está em gerir esse estado. “Tremer” na fase inicial é normal: é uma reação exagerada imediata. Depois terá de vir a racionalidade e os antipiréticos. Monitorizando a temperatura, no corpo, avaliando os procedimentos, na empresa. Mas, não esquecer, a febre é um sinal. Não confundir baixar a febre com tratar a doença. Tal como na empresa, não basta tratar os sinais das “tremuras” da organização. Isso é visível e fácil de resolver. Mas não basta. Temos de ser mais profundos. Tratar as razões da tremura. Ou seja, resolver os problemas na génese e não apenas nos fenómenos visíveis.

 

Mas o nosso corpo tem possibilidades incomensuráveis. Já sabemos que pode atingir velocidades inimagináveis, altitudes incríveis, profundidades abissais, temperaturas extremas. Ou seja, o nosso corpo quando estimulado, maximiza-se. E como fazemos isso? Treinamos. Exigimos. O nosso organismo para se aperfeiçoar tem de ser submetido a estímulos cada vez mais intensos. Todos sabemos que os treinos vão sendo ao longo da época progressivamente mais intensos. Mas sempre? Não. Com flutuações. E as cargas flutuam porque se forem sempre da mesma magnitude, o corpo adapta-se e não progride. Se aumentarem sistematicamente entramos em fadiga crónica. Então, para sermos eficientes no treino temos que dosear as cargas conforme o estado dos atletas de forma a maximizarmos as forças e minimizarmos as fraquezas. No treino e na vida!

Invista em si!

Muito temos ouvido falar da crise económica e financeira. Há como que um stress adicional no ar! Estarão as nossas reformas garantidas? O que vou fazer depois de me reformar? Serei que me vou adaptar? Não será melhor aumentar os meus planos de poupança? Quais os melhores produtos? Etc., etc.

Invista em si, já!
Mas o raciocínio mais lógico e objetivo será: para eu poder usufruir de uma reforma confortável que me faça encarar a vida com qualidade, em primeiro lugar, terei de lá chegar e, depois, ter saúde (para além da financeira…) para a gozar.

Todos nós estamos muito habituados a pensar no futuro. Mas o amanhã só faz sentido se ele aparecer e, se quando aparecer, eu o puder usufruir em toda a sua plenitude. Para isso, tenho, desde já, investir em mim. O famoso princípio da máscara de oxigénio. Nos aviões quando estão a ler as normas de segurança dizem: em caso de despressurização da cabine, cairão as máscaras e deverá colocar primeiro em si e só depois em quem terá de ajudar. Caso contrário, se desmaiar como poderá ajudar o seu filho? Ou seja, como pode tratar dos outros ou do seu futuro se não tratar de si?

Comece por fazer um bom depósito na sua saúde. Ainda que não fique obcecado por hábitos de vida saudáveis, sugiro-lhe que olhe para o seu peso e veja se ele lhe vai permitir, quando se reformar, jogar golfe, viajar e passear pela cidade a pé, subir as escadas da catedral que tanto quer visitar, se tem capacidade para velejar ou dar umas boas passeatas de bicicleta.

Veja como estão os seus fatores de risco. Como está o seu colesterol, a sua pressão arterial. Não vá o diabo tecê-las… “eu com tanta preocupação com os “outros” PPRs e, afinal, nem tive tempo de os utilizar!”

Aprecie as refeições
Comece a apreciar melhor as refeições. Devem ser encaradas como momentos sagrados. Desligue o telefone e utilize os 30 ou 40 minutos à mesa para apreciar o que está a fazer e, se possível, a conviver com mais alguém. Comer e trabalhar, ainda que esteja na moda (particularmente para os restaurantes…) nunca foi uma boa combinação. Se a reunião não está a correr bem, ficamos stressados e a libertação de hormonas de stress prejudicam a digestão. Se está a correr bem, ficamos tão entusiasmados que não saboreamos, engolimos. É um momento de tratarmos de nós.

A vida não é uma maratona: é um conjunto de sprints
Descanse. O sono é um excelente reparador. Precisamos de descansar para fazer o reabastecimento do nosso organismo. E, por falar em descanso, quando está no seu trabalho pare de 90 em 90 minutos. A vida não é uma maratona, é um conjunto de sprints. Para fazer vários sprints temos de recuperar. Dez minutos de paragem são suficientes. Foco, recuperação, foco.  Levante-se, fale com um colega e volte e concentrar-se. Excelente maneira de nos centrarmos a 100% no essencial.

Ou seja, trate agora de si, para poder gozar o que tanto trabalho lhe deu a ganhar.

O princípio da máscara de oxigénio...

Quando entramos num avião, durante as explicações de segurança há uma parte em que na cabine dizem algo deste tipo “em caso de despressurização, as máscaras de oxigénio caiem automaticamente. Deverá colocar a sua em primeiro lugar, respirar calmamente e, só depois, ajudar a criança …”. Não sei se já repararam neste aviso, mas ele tem-me servido de “inspiração”, como se diz agora, para a minha vida. O que retiro deste aviso? Que, para poder tratar dos outros, tenho de tratar primeiro de mim. Caso contrário, como posso ajudar quem quer que seja? Pode parecer um sentimento egoísta, mas não. Profundamente altruísta. Porque para eu poder ser útil à minha família, aos meus amigos, à minha empresa, etc. tenho de estar em boas condições físicas e psíquicas e, para isso, tenho de tratar de mim próprio.

Antes de mais, tenho de cuidar da minha saúde. Como posso trabalhar, ajudar os outros, se não estiver de perfeita saúde? Tenho de ter cuidado com o meu estilo de vida, fazer exercício, ser ativo, fazer os exames médicos aconselhados para a idade, etc. Muita gente pensa que o corpo serve apenas para transportar a cabeça. Trabalho com quadro de topo de muitas empresas, pessoas que ocupam cargos muito exigentes do ponto de vista da responsabilidade, da tomada de decisão e que, por isso, acabam por ter pouco tempo para si próprios. Preocupam-se apenas em ler relatórios, reunir com os seus quadros, elaborar planos e estratégias, mas esquecem-se que, um dia, tudo isso vai poder esperar… Quando fazem um exame de rotina ou algum sintoma os leva a um médico, e o resultado é algo que não estavam à espera, aí as pessoas confrontam-se com a dura realidade de que o corpo não serve apenas para transportar a cabeça… Temos de cuidar dele, caso contrário ele cuida de nós. Começam os exames, as análises, os testes e as reuniões e os relatórios passam para segundo plano. Tudo o que parecia inadiável, passou a ser adiado. E agora, posso perceber como teria sido mais inteligente ter tido um pouco mais de cuidado comigo de forma a poder cuidar dos outros…

Tenho de ter tempo para mim. Também parece egoísta. Mas, de facto, não é. Quando chego a casa depois de um dia de trabalho intenso, de viagens, preciso de descansar, de fazer algo que me dê prazer de forma a relaxar e a poder ter disponibilidade mental para a minha família ou para os meus amigos. O mesmo se passa nos nossos empregos. Se depois de uma série de reuniões intensas, apresentações ou escrita de relatórios, tenho de fazer um “slow down”, um abrandar, arrefecer… de forma a poder ter a calma e a serenidade para abordar os outros, perceber melhor os problemas e encontrar a melhor solução. Está de resto bem demonstrado que o nosso cérebro quando demasiado “carregado” acaba por ter um muito maior risco de decidir pior. Não analisamos todas as variáveis de uma forma imparcial e objetiva, as nossas emoções acabam por contaminar a nossa parte racional e o resultado é o... caos.

Aproveite os momentos para relaxar. Muitos estudos mostram que 5 ou 10 minutos a ouvir uma música calma, a pensar em algo que nos dê prazer, faz baixar a atividade elétrica do nosso cérebro e, por isso, induzir descanso, calma e relaxamento. Se depois de algo que lhe provocou cansaço ou um stress intenso, dê tempo ao tempo… Trate de si, aplique o princípio da máscara de oxigénio e descanse. Depois desse descanso, volte ao trabalho. Vai ver que tudo lhe parece diferente. Não insista em decidir quando está muito cansado. Um estudo recente mostrou que mais de 50% dos erros médicos nas urgências nos EUA se devem a cansaço. Os médicos acabam por tomar decisões erradas, raciocinar de forma deturpada porque estão cansados e isso pode ser trágico.

Presentísmo – Um problema do tapete da empresa?

Se perguntarmos a um conjunto de administradores de várias empresas se consideram que os seus colaboradores seriam mais produtivos se fossem mais saudáveis, mais activos, mentalmente focados nas suas tarefas, se tivessem uma relação saudável com os familiares/amigos e se mantivessem um compromisso com a missão da empresa, estou certo que todos diriam que esse seria o modelo de colaborador que desejariam ter. No entanto, se perguntássemos “E o que fizeram até agora para isso?”  as respostas seriam certamente muito mais dispersas. Ou seja, todos nós facilmente concordamos que, para sermos mais produtivos teremos de nos sentir bem com o nosso corpo e sermos saudáveis, mas quantos de nós fazemos algo para concretizarmos este objectivo? Quantos de nós inscrevemos esta preocupação na estratégia global da empresa?

A este propósito, existe hoje claramente descrita uma nova forma de diminuição da produtividade. Conhecíamos já o absentismo, falamos agora de “presenteísmo”. O que significa este novo termo? Diminuição da performance por problemas médicos e psicológicos. Ou seja, o trabalhador está no seu local de trabalho, não falta, mas a sua produtividade é francamente diminuída porque está sem motivação, tem dificuldades físicas (ex: lombalgias, dores de cabeça constantes, astenia etc.), psicologicamente sente-se mal porque se apercebe que não está a produzir o que deveria. É um quadro que todos nós identificamos como extremamente comum. Todavia, ainda que seja frequente, sabe-se que é mais prejudicial para a empresa porque é indetectável. Ou seja, o colaborador está presente, mas produz cada vez menos. É um ciclo vicioso que perigosamente se aproxima do esgotamento físico e psíquico. Esta nova entidade, designada aqui por presenteísmo, é já objecto de estudos de impacto económico e social. As empresas não sofrem apenas com a diminuição da performance, mas acabam, também, por ser oneradas com os custos inerentes à entrada em falência física dos seus colaboradores. Os primeiros dados apontam para prejuízos superiores aos causados pelas faltas dos trabalhadores por doença!

Neste sentido, existe uma cada vez maior procura, por parte das empresas, de programas de acompanhamento e monitorização do estado de “prontidão” dos seus quadros. De forma geral, todos os programas têm de cumprir três passos determinantes: (i) disponibilizar programas de avaliação do estado físico e emocional dos colaboradores; (ii) depois de feito o diagnóstico, implementar programas de compensação dos deficits encontrados e (iii) monitorizar a aplicação e os efeitos do programa.

Desta forma, poderemos criar, por um lado, um sistema de alerta para os possíveis casos de presenteísmo e, por outro, envolver esse colaborador num programa que o ajude a ultrapassar e a resolver uma fase menos boa que, detectada e enquadrada a tempo, poderá ser resolvida.

Stress, Sinais e Sintomas

O stress tem um impacto decisivo na nossa performance, seja do ponto de vista pessoal, seja profissional. Por isso, são raros os dias que não vemos publicado algo sobre este tema. E este interesse crescente justifica-se não só pelo número de pessoas que sofrem com este problema, mas, acima de tudo, pelos seus efeitos na saúde.

De uma forma geral, os principais sinais e sintomas do stress podem ser divididos em 2 áreas: físicos e comportamentais.

Do ponto de vista físico, os mais frequentes são:
· Dores de cabeça
· Ranger frequente de dentes, especialmente de noite
· Tremores
· Dores na zona cervical e lombar assim como espasmos musculares
· Zonas do corpo mais avermelhadas (rush) e sudação anormal
· Boca seca e problemas de deglutinação
· Suscetibilidade do sistema imunitário – herpes, infeções das vias aéreas superiores, alergias
· Perturbações do sono
· Alterações do padrão alimentar. “Sugar craving” – necessidade de alimentos doces ao final do dia
· Alterações do “sex drive”
· Alterações do peso

Do ponto de vista comportamental, salientam-se:
· Dificuldades de concentração
· Problemas de memorização
· Dificuldade na tomada de decisão
· Esquecimentos frequentes, especialmente de palavras (“brancas”)
· Dificuldade de tratar informação nova
· Reações emocionalmente exageradas
· Sentir-se em “overload mental”
· Crises depressivas, ansiosas ou de autodesconfiança nas suas capacidades
· Irritabilidade
· Fadiga geral 

A forma que temos para enfrentar este mal da atualidade é, antes de mais, reconhecer o mais precocemente possível, os principais sinais e sintomas. Quando desvalorizamos algo que se modificou na nossa saúde e comportamento, estamos a dar os primeiros passos para que todo o processo de torne mais complicado na sua resolução. Por isso, esteja atento!

Performance Corporativa

As neurociências, em geral, e o estudo do cérebro, em particular, evoluíram de forma exponencial nos últimos anos. As técnicas cada vez mais sofisticadas, vieram dar um impulso significativo a todo o conhecimento, com relevância especial para a ressonância magnética nuclear funcional (RMNf). Para além dos estudos morfológicos, temos agora acesso a imagens em tempo real da funcionalidade do cérebro. É um passo gigante no conhecimento que implica uma revisão de muito do que tem sido escrito e dito em áreas tradicionalmente mais ligadas ao comportamento, como as vulgarmente designadas por “soft skills”. Estas competências, cada vez mais valorizadas, estavam originariamente sob a égide das também chamadas “soft sciences” como a psicologia ou sociologia. Mas, atualmente, deparamo-nos com alterações significativas neste quadro conceptual. Não só as neurociências trazem dados novos e cada vez mais profundos sobre a funcionalidade cerebral, o que implica a revisão de muito do que sabíamos e dizíamos, como as “soft skills” que, ao adquirirem um papel tão relevante no perfil dos colaboradores das empresas, têm de ser entendidas como verdadeiras “hard skills” porque estão na base da diferenciação individual.

No desporto, por exemplo, já percebemos que o que faz muitas vezes a diferença entre a medalha de ouro e de prata não é tanto a componente mais fisiológica, mais “hard”, mas antes as capacidades de gestão da ansiedade, motivação ou concentração na tarefa! São estas características ditas “mais “soft” que, ao mais alto nível, fazem a distinção entre os melhores e os menos bons, entre os mais e menos performantes. Também nas organizações, para além das capacidades mais “hard”, são os “soft skills” que se constituem como a base para a expressão das competências mais técnicas.  Por isso, esta distinção entre “hard” e “soft” não só se tem vindo a esbater, como muito daquilo que se pensava sobre estas competências, em muitos casos, está longe de ser confirmado pela ciência.

A literatura científica tem sido clara ao demonstrar que, para além das capacidades mais comportamentais serem decisivas, existem dois fatores que acabam por adicionar complexidade a este “framework”: o papel do stress e da fadiga nos “soft” skills. Será que aquela pessoa que mostra níveis elevados de compromisso com a empresa ou com a equipa, liderando de forma aceite e valorizada por todos e com níveis de motivação contagiantes, consegue manter esse perfil perante uma situação de turbulência pessoal ou profissional ou perante exigências profissionais muito elevadas? Ou seja, quem é um excelente “soft skiller” em ambiente calmo e tranquilo, garantirá uma liderança e níveis motivacionais elevados em stress e fadiga com as mais diversas origens? Em concreto, o perfil de um CEO de uma empresa em crescimento será o mesmo quando o ambiente se degrada ou perde o principal cliente e a viabilidade económica da organização fica em risco? Ou quando algo na sua vida pessoal se altera negativamente?

Ou seja, as organizações vivem hoje um ambiente que adiciona complexidade à expressão das componentes comportamentais. Se atentarmos no envolvimento corporativo de todos nós, rapidamente concluímos três pontos comuns a quase todas as organizações:

  1. As pessoas nunca estão em “offline”. Ou seja, nunca estão desconectadas.
     
  2. Longas horas de trabalho. As oito horas são quase já uma raridade. É habitual falar-se já dos dois turnos de trabalho. O primeiro turno corresponde às horas na empresa e o segundo refere-se ao final da noite quando vamos verificar a caixa do mail ou terminar um relatório...
     
  3. Pressão para os resultados. A frase constantemente referida de que “é preciso crescer” e esse crescimento tem de ser suportado em resultados, faz com que a parametrização do trabalho envolva todos num ambiente pressionante e muito exigente.

Estas 3 características do mundo atual nas empresas estão associadas a um conjunto de consequências que podem ser resumidas em: stress e fadiga. Estas duas consequências não só estão interligadas, como acabam por potenciar a sua expressão e terem um impacto, não só na performance corporativa, como também no desenvolvimento pessoal de cada um de nós. Ou seja, se por um lado as neurociências vêm trazer novos “insights” aos “soft skils”, o ambiente corporativo caracterizado por elevados níveis de exigência e envolvimento, obriga a uma visão mais complexa e profunda das competências comportamentais significativamente comprometidas, seja pelo stress, seja pela fadiga imposta pelo dia-a-dia das organizações, independentemente da área, nível ou dimensão.